
“Phoebe Bridgers faz do luto e do amor forças motrizes de seu terceiro álbum, dupla hélice de um único DNA. Esse é um álbum que vai te conquistar lentamente.”
Qual é o caráter definidor de uma música “clássica” do estilo Phoebe? A pergunta pode parecer difícil de responder, mas, mais importante do que esse dilema, é a reflexão sobre influência no universo contemporâneo da música. Existem dois tipos de artistas influentes hoje: pegue, por exemplo, uma Olivia Rodrigo, cujo sucesso do primeiro trabalho é tão estrondoso que se multiplica. Milhares de sonhadores com a fama replicam o mesmo estilo de “SOUR”, não é difícil se deparar com um pseudo-artista de TikTok vendendo a estética “olha o que eu acabei de fazer”. O que eles acabaram de fazer foi brincar de Frankenstein com as baladas ‘traitor’ e ‘happier’, um timbre daqui, o jeito de rimar dali, um pouco do mesmo marketing, emprestam até o discurso. Cópias – ou copycat, como é o termo da indústria – são um signo do primeiro tipo de influência. Você influencia pessoas a quererem ser como você.
Daí, existem os artistas que operam num nível de influência diferente, de capilaridade e manifestação muito mais nimbosa. Artistas como Phoebe Bridgers, que criam um som que ecoa entre os próprios companheiros de indústria musical. Clássicos de muito menor sucesso comercial, como o “Punisher”, inspiram seus páreos a emular seu encantamento. Sua magia. Não mais como os copycats, estamos falando de influência de peixes grandes. Parafraseando a Chappell Roan: your favorite artists favorite artist.
“Punisher” lançou uma epidemia de “clássicos” do estilo Phoebe por toda parte no pop. Mas ninguém faz melhor que o original. Os álbuns de Phoebe como artista solo – sua carreira tem sido bem colaborativa, entre os projetos de banda como Boygenius e Better Oblivion Community Center, para backing vocals em álbuns de amigas como Lorde e Clairo, até os featurings espalhados de Taylor Swift até The National – possuem um folclore muito bem estabelecido: todos são sobre os fantasmas. É bem óbvio, ela frisa isso didaticamente nas artes de suas capas. A figura pintada com tinta sobre a fotografia de infância, depois seu semblante fantasiado para o Halloween, isolada em um deserto à noite, e agora, um holograma vacilante no breu. Esteticamente, a artista mostra que sabe traduzir em imagem o que cada álbum tem de único. “Lost Weekend” inaugura a categoria desses fantasmas holográficos: as oscilações do luto, de amores passados e amores futuros. Entre as ambiguidades do que sentiu (ou lembra de sentir, que é sempre um pouco diferente) e o que ela sente agora, qual a diferença entre os fantasmas de verdade e o holograma? O holograma não tem vida própria, é apenas o que sobra conosco como memória. Mais persistente, podemos a qualquer momento dar play em nossas lembranças de alguém como um filme digital. Essa descrição tem bem menos cara de assombração – e Phoebe alude algumas vezes ao fato de não acreditar em reencontrar com o seu falecido pai (“He’s not coming back as a bird / He’s not coming back” ela murmura na faixa de encerramento).
Muito do que surpreende nesse álbum é o seu silêncio. Várias das músicas convidam para o silêncio do som entre os versos. Bridgers não tem interesse algum na pressa. Faixas como ‘Panorama’ e ‘Lost Parade’ são quase, ou totalmente, desprovidas de letra. Nada mais sincero para compartilhar com o público sobre a perda de seu pai (falecimento que ocorreu no meio dos seis anos que separam “Punisher” de “Lost Weekend”). Além de transparente, o silêncio abre espaço para inventividade. Cada intervalo sem voz nas músicas se torna um novo palco para a produção mais rica e detalhista de todos os seus trabalhos reverberar. O luto é enigmático, não se desdobra em faixas plenamente lógicas, que entregam uma narrativa satisfatória de começo-meio-e-fim. O eu-lírico é fantasioso, cria conexões aparentemente inúteis, como se o escapismo não contasse metade da história. É o caso da brilhante ‘The Governor’s Waltz’, que abre com uma imagem da bela no baile, escondida no banheiro como Shelley Duvall. Poucos versos se preocupam em construir sequencialidade, mas o resultado é sempre um quadro muito vivaz e evocativo: “I know you don’t really think about jumping / But do it for me”, ela pede com sua voz melíflua. A música faz da intimidade de dormir junto, a metáfora para um relacionamento que nunca iria dar certo: de alguém que te assiste fingir dormir, para agora nunca perder o sono, sem tê-lo mais ao seu lado.
Em termos de estrutura, esse é um álbum cheio de recorrências à si mesmo e de paralelos. Demorei muitas ouvidas para me atentar aos tantos recursos que o dividem simetricamente ao meio. Não explico tudo, acredito que parte do que faz o bem-bolado é como cada um desvenda por si só os mecanismos, ali operantes. A segunda metade do álbum possui muitas faixas mais efêmeras, a própria ‘Panorama’ foi inspirada por ambient music. ‘Never Going Back!’ é um simples repetir da mesma frase, e desaparece com um áudio deixado pelo seu pai dizendo “Being a rockstar takes up a lot of your time, I’m guessing / You’re everywhere, dude”. ‘Other Plans’ parece um interlúdio, é a música mais imprecisa e enigmática do conjunto. No Side A temos presentes faixas mais incrementadas, que exploram sua largura total. Como em ‘Lost Weekend’ e ‘Kill Me’, que mudam completamente perto de seus encerramentos. A primeira, começa como mais uma balada no estilo Elliot Smith, e termina com uma explosão de instrumentos e sussurros afobados. ‘Kill Me”, remanescente direta de “Stranger In the Alps”, também vem inquieta, com a cantora pedindo: “This is gonna kill me / Wait”, antecipando o impacto. A música obedece, suspensa e pausada por um instante depois do pedido. No final, com referências a “Tamám Shud”, somos levados para um caldeirão de encantamento. “Let’s go missing” ela propõe, entusiasmada.
‘As Above’ é tudo o que eu precisava saber sobre a qualidade que Bridgers ainda canaliza em suas músicas. Um pacote perfeito de seu estilo meio fluxo-de-consciência, solto e descompromissado, sem formar qualquer tipo de síntese ao primeiro olhar, mas que melhora a cada vez que se ouve. Esse é o “clássico” da cantora que complexifica, adensa. “Trying not to look down / Making faces at a kid on a plane / Trying not to freak out / About being a couple days late” é a cena que temos na abertura dessa faixa que também se transforma. Há algo selvagem, feroz, quase paternal na maneira de amar que Phoebe descreve. Quando seus vocais acompanham o que o sentimento exige, gritando uma única vez em todo o álbum (ponto crucial para a eficiência do efeito, pois ele não vem como mera tentativa de chocar): “You won’t have to believe in magic / Leave it to me and I’ll make it happen” ela parece berrar para a criança no voo. Querendo protegê-la de um acidente aéreo que nunca aconteceu de verdade (a-lá turbulência de Mitski na maravilhosa “Last Words of a Shooting Star”). A comparação que ela estabelece entre sua visão de tempo como algo empilhado e vertical, e a suspensão das impressões que sentimos ao ver o mundo de cima, traz para essa música algo de sublime. A sensibilidade com que os filmes assistidos em aviões parecem conseguir nos levar mais longe que o próprio transporte – em dado momento ela se pega comparando a dureza dos Air Force Ones com a resiliência de sua mãe, que dirigia a si mesma para o hospital. Tudo isso forma, sem sombra de dúvidas, um primor da sua discografia, companhia digna para hinos como ‘I Know the End’.
A maneira de amar de Phoebe se entrelaça com a sua compreensão dos dois lados paralelos do pai, atravessando tudo que ela canta agora. Em ‘Still Standing’, somos expostos a uma ferida que nunca estanca. Como se não se bastassem somente os versos finais “I can’t imagine you dead / But you are, everyday / Thank you for everything”, o acúmulo de os receber depois da sequência de imagens de violência, misturadas à cumplicidade, e as entranhas de uma espinhosa dinâmica pai-filha, impossível de penetrar de fora, torna tudo ainda mais arrepiante. ‘Bobby’ pode ser facilmente intitulada de música mais elétrica que Phoebe lançou. Uma explosão de entusiasmo no amor quando parece que vai dar certo, um exagero que só os apaixonados são capazes de entender: “And if you didn’t like any one of my friends / I’d kill them / I’d kill them”.
Em algumas outras músicas, exploramos a sua declaração de amor para o estrelato. Dentre tantos cantores que hoje parecem odiar ser famoso, Phoebe admite simples e sem medo: “I got too much money and nothing to lose”. Em ‘Haunted’, entendemos até onde ela aceita o contrato da fama. O que ela quer compartilhar e o que ela opta por guardar como precioso. “I have no secrets, only feelings / And I know those go away / There is a difference between lying / And deciding what not to say” é o esquema dos versos, brilhantemente elaborados no simples, prova tátil de que a qualidade da sua escrita nunca precisou de palavras difíceis para ser bela e única. É o seu luto, era o seu noivado que não chegou ao casamento, e agora, é o seu novo amor. Ela nunca deixa essa exigência externa do que esse álbum “deveria ser sobre” corromper a sua visão artística, e principalmente sua força como compositora, conseguindo assim explorar novos limites de um som que é integralmente seu, apesar de tão copiado em outros lugares – talvez esse seja o seu superpoder.





