HALO – Tiffany Day

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O casamento perfeito entre dinamites explosivos da eletrônica com o confessionismo marcante do bedroom pop, HALO é um álbum de sentimentos mistos: a festa, a multidão, a euforia, o sonho concretizado e o dilema do outro, da audiência, da confiança fabricada, de buscar effortlessness e ansiedade. O DNA desse disco é algo, pra mim, muito geracional. Numa realidade derretida pela internet, como se parecem hoje os jovens adultos nas baladas? Quem dita o cool? Quanta autossabotagem um sentimento de comparação inerente consegue contaminar quando seu sonho de vida se torna realidade?

A justaposição entre música e letra é uma das nuances dessa nova música eletrônica que eu acho mais conquistadora. Experts no ElonMuskwitter.com e seus hot takes sobre música querem te convencer (– dentre tantas coisas) que se você ouvir somente música triste e depressiva isso realmente afeta o seu humor no dia-a-dia. Claramente eles desconhecem a sequência “EVERYTHING I’VE EVER WANTED” e “DOIT4ME” de Tiffany Day. Conceitualmente, ela escolhe abrir o álbum da melhor forma: nos posicionando no seu ponto de vista. Os versos desenham a sua trajetória numa estrutura de edit, com flashes de tudo que precede o momento de subir num palco e tocar seu set. É uma avalanche de sentimentos conflitantes, e nessa crescente bola de neve as confissões de Tiffany ganham aquele verniz de crueza ou sinceridade que arrepiam, como quando ela diz “…and I just don’t understand / how my passion for the thing that raised me up as a child / turned into my greatest fear and how I don’t even smile”.

Depois do acúmulo, catarse. A transição das duas primeiras faixas espelha lindamente essa virada de chave, da cabeça a mil antes da performance pro momento que o show começa. E é bonito como “DOIT4ME” não interrompe o fluxo. Com a sutileza da troca de preposições na frase do refrão (“Would you do it to me?” versus “Would you do it for me?”) Day sustenta, como quem não quer incomodar, o seu maior medo e maior desejo pra um outro que é tão abstrato, e por isso tão assustador, o público. Vocês curtiriam a festa ao meu som, por mim?

Eu nunca ouvi um álbum que me lembrasse tanto de tantos rostos amigos como HALO. Parece que cada música evoca uma faceta diferente do que significa ter crescido nos dias de hoje. O que enfrentamos não é reinvenção da roda: términos, correr atrás dos sonhos, o peso do trabalho, autoestima, se sentir sozinho no começo da vida adulta. Nossos pais e avós também vivenciaram tudo isso. A cápsula aqui é a do como nós enfrentamos. Ter crescido com o digital já se desdobra na maneira em que escolhemos contar a nossa história. Se Ninajirachi fez em I Love my Computer uma espécie de homenagem à nostalgia e as experiências positivas com a internet na pré-adolescência (encontrar companhia, construir uma identidade), Day faz o oposto complementar: é uma insegurança constante de que todos ao seu redor carregam uma leveza ou facilidade de navegar o jeito de ser. Esse vazio invade todos os temas em todas as músicas, e grita o nome de pessoas que eu conheço profundamente, na vida real e só no online.

Quando comecei falando de dinamites, penso num inevitável efeito-Lorde que foi injetado no pop pós-Melodrama. “Blowing shit up with homemade d-d-dynamite” parece que emoldura tão bem o input moderno da festa quanto uma Monalisa, e os sintetizadores de HALO tem muito a agregar ao quadro. Aceleram seu passo andando na rua, provocam vontade de desfilar sozinho, cementam uma vontade de sentir tudo que uma noite fora pode oferecer. Me questiono se ouvir isso todo dia molda uma atmosfera de depressão ou não, segundo as teorias  do maniqueísmo intelectual digital.

Esse derretimento ou glitch da nossa realidade mixada com a internet afeta um pouco de tudo. Os sub-gêneros na música estão perdendo cada dia mais os limites e ganhando um novo sabor numa espécie de caldeirão – é difícil, pra mim, não categorizar esse álbum como simplesmente pop. Ele é exatamente o que eu mais amo na música pop, mesmo sendo mega eletrônico. Sempre falou-se do perigo de picos muito altos e vales muito profundos na montanha russa de emoções, e é como se a velocidade 2x dos tiktoks que já tem 2 minutos também acelerasse esse movimento. Euforia-depressão se torna um limite borrado, difícil de decifrar. Day vai direto do ponto A pro ponto B sem nem hesitar: “Sometimes you gotta throw all of it out / So that you can really start over / And so I did it, now i’m starting again” canta ela na minha favorita, “START OVER”. Validação externa, validação interna, autoestima, autocrítica… Quem sabe dizer de onde vem o quê? “At first no one gave a fuck / But now you’re hitting me up / I guess I’m doing something right”.

Como escolher highlights para uma review num álbum tão banger after banger? Harry Styles deveria deletar a sua versão dos streamings depois de ouvir “AMERICAN GIRL”. “SAME LA” é praticamente um novelo de tudo que esse texto tenta explicar, teoria da síntese executada no detalhe. A recompensadora “NO LUCK” que começa com um sintetizador/drop delicioso que fica lá até a música acabar. Todo o estilo que me parece ser a nova identidade de Tiffany me lembra muito uma mistura de SZA com Olivia Rodrigo. A insegurança como principal musa.

O mais contraditório de tudo é o quão cool a figura da Tiffany Day se configurou pra mim depois de HALO, onde ela mais confessa não fazer ideia do que está fazendo. Existe um gut feeling – perdoe os anglicismos, um instinto – em apostar num disco que seguisse essa linha, rendeu um home run. O mesmo frio na barriga que te recebe, é o que encerra em “IT’S NOT LIKE THAT ANYMORE”. A música poderia se chamar “IF I DISAPPEARED”, mas o propósito do fechamento aqui não é mais reforçar a falta de algo. O intuito é quebrar o padrão, Day não precisa mais implorar por nada. Seu lugar no mundo, ou na panelinha, já está garantido. As coisas já não são mais as mesmas.

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