
“Olivia posiciona um perfeito álbum quebra-cabeça em sua discografia, cheio de conceito, progressão e autorreferências – seria injusto achá-lo perfeito demais?”
Em comemoração ao lançamento do seu terceiro álbum de estúdio, Olivia Rodrigo compartilhou um tão famigerado photo-dump em seu Instagram. Uma das fotos mostrava numa lousa branca o seguinte planejamento: “The ‘not’ purple album – #1. purple (bridge)”. you seem pretty sad for a girl so in love’ quer te causar uma impressão muito bem definida: em contraste com seus antecessores de capa roxa, esse é um projeto desenhado com intenção da primeira à última faixa. Talvez, planejamento seja a palavra-chave para destrinchá-lo. Uma sábia e jovem Olivia, ao lançar seu estrondoso debut ‘SOUR’ (2021), disse em entrevista para a Variety que estava tranquila quanto a qualidade do primeiro álbum. Ela entendia que não precisava estrear com o seu melhor disco, amadureceria e aperfeiçoaria seu trabalho com o tempo. Dois anos depois, ‘GUTS’ (2023) chega quase como uma v2.0. As baladas: mais polidas e com léxicos mais fortes (ela consegue encaixar a palavra ‘vitriol’ no clímax emocional de ‘the grudge’). Os singles: agora ainda mais efervescentes e criativos, usam e abusam de suas influências pop-rock. Três anos e um relacionamento bem público depois… O que a cantora traria para a mesa em sua charmosa terceira vinda?
Quando reflito sobre cultura pop, gosto sempre de buscar entender o que singulariza cada cantora dessa nova geração em justaposição umas às outras. Billie Eilish com os sussurros porta-voz da gen z, Gracie Abrams e os desabafos caóticos e contraditórios, Sabrina Carpenter e seus trocadilhos afiados, sensual e divertida – qual é o jenessequá de Olivia? Bom, ‘you seem pretty sad…’ propõe uma cantora com: a) bagagem referencial forte (dessa vez o elemento new-wave é quem atravessa o álbum); b) ambição conceitual (estamos num disco profundamente narrativo, é cronológico e sequencial – não o ouça no aleatório, você vai perder os detalhes); e c) músicas para quem gosta das duas Olivias: a das baladas emocionais que resgatam ‘drivers license’ (que, consequentemente, resgatam sempre algo da Lorde), e para quem quer a Olivia roqueira – é aqui que eu vejo como ela é consciente a respeito da própria marca. Meu pé atrás fica nessa imagem dividida que acaba não se firmando nem lá, nem cá. Veja, não estou impondo que ela deva escolher somente um caminho, mas 5 anos a dentro de carreira que investe bastante em vender a imagem de compositora, as composições emotivas ainda deixam a desejar.
Existe um certo humor que circundou as especulações a respeito desse novo trabalho, um que escancara como a internet é um mundo de faz-de-conta. Quem via as fotos de Olivia e seu ex-parceiro, o ator londrino Louis Partridge, esperava que seu terceiro álbum seria um de amor infeccioso e borbulhante. Com a chegada do anúncio e do título – depois de algum tempo da notícia da separação já rondando páginas de fofoca – houve quem dissesse que ela precisou descartar o álbum de amor e fazer um novo do zero às pressas. A cantora negou tais rumores e frisa que seu trabalho foi somente o de revisitar as músicas mais “perdidamente apaixonadas”, dando-lhes um toque de Lacan.
Ela vai nos desnovelando nó a nó da sua tragédia e suas dores, num esquema muito bem arquitetado: Side A → ‘purple’ → Side B. Até a escolha dos pré-singles corrobora com o conceito todo. O lead ‘drop dead’ descreve com expansividade as flutuantes borboletas no estômago de um primeiro encontro bem-sucedido, mas é ‘the cure’ quem muda o tom da conversa. Se as teorias imaginavam haver um álbum de amor descartado, e outro mais recente, Olivia parece vir com um resultado final que condensa os dois álbuns hipotéticos num só. Esse desenho denuncia uma namorada que foi se revelando para si mesma, escrevendo no durante e podendo olhar no final para trás, encaixando as peças mais com a coesão e clareza da distância.
Parece que todo o cuidado e esmero foi justamente esse, veementemente mencionado em quase todas as entrevistas dadas pela cantora neste ciclo de divulgação – que conta como o processo criativo envolveu revisitar muitas músicas,inicialmente de um amor mais feliz, e injetar a ansiedade e toxicidade silenciosa nelas. Desse esforço explicativo, eu apreendo um grande cuidado que ficou no esqueleto. No planejamento. É uma linda planta, mas a casa construída não necessariamente alçou um vôo muito distante do que GUTS já apresentava. Acho que daí vem minha relutância em consagrar esse álbum um grande acerto.
Por um lado, momentos do álbum como ‘stupid song’, ‘honeybee’ e ‘what’s wrong with me’ ainda me dispõe uma cantora presa em vícios ruins. Como de exemplo, a recorrente evocação da imagem de um “não sei descrever” ou “difícil de explicar” nas letras. Sim, todos nós sabemos que é impossível pôr em palavras o sentimento (ou qualquer coisa). Essa é a graça, o desafio e o trabalho do escritor. Se fosse o caso de aparecer uma vez, digamos, em ‘stupid song’, que é o caso de melhor proveito do truque, eu perdoaria. Mas insistir demais que você não sabe dar nome para o que é inerentemente difícil de expressar, começa a soar como desculpa de um compositor fraco.
E mesmo assim, sequências como ‘maggots for brains’, ‘u + me = <3’, e ‘purple’ advogam por uma outra artista mais livre, explorando novos ares dos acertos de seus outros álbuns. Respectivamente, uma obsessão inofensiva à primeira vista, a esperança infinita no “para sempre nós dois”, e a peça-chave ponte do álbum. Aqui, ela mira no centro do alvo e acerta vários tiros seguidos. Para além de cumprirem, cada uma, o seu papel no grande esquema, as músicas são individualmente cativantes, afiadas. Não fosse por uma ‘my way’ no meio do caminho, que oferece mais do mesmo, a sequência seria facilmente a mais sólida da discografia. ‘purple’ é, ao mesmo tempo, interlúdio e chave dessa história. E como funciona bem! É estranha e inquieta, vai tensionando verso a verso, até se tornar inignorável: há algo de errado aqui. O esquema de “circle / purple / couple / double” me deixou incrédulo por não ter sido pensado numa música pop até então – como assim ninguém rimou isso antes? É a música mais inteligente do álbum, e, ao que parece, a semente que germinou-o todo.
‘cigarette smoke’ é, sem sombra de dúvidas, o destaque da sua discografia. A música habita uma mesma paisagem que eu apelido de “canções de encerramento com o questionamento central do álbum, muita catarse e vocais gritantes distorcidos” – ‘David’ (Lorde), ‘Strangers’ (Ethel Cain) e até ‘I Know the End’ (Phoebe Bridgers). Olivia demonstra pleno domínio e força como compositora original e voz da sua geração, constrói a metáfora final que não só amarra tudo melhor, mas adiciona camadas. É seu momento mais brilhante e potente: “Tell me something honest so the memories go dark” ela pede. Desenhando para nós como o cheiro do cigarro fica impregnado nas roupas, ela nos diz como gostaria de também poder acender essas lembranças todas – com a ignição de uma sinceridade doída. O cigarro, a luz em brasa da ponta acesa, a fumaça. Todos esses elementos viram síntese e símbolo para intensificar o momento final do álbum. Momento que pedia grandeza e é grandioso, melódica e liricamente: “It’s bone dry, bitter and hollow / You will never know my sorrow / Why did I try at all?” é a confissão da ponte. Absolute music.
A sensação óbvia é que Olivia lançou um dos projetos mais consistentes, e por isso tão bem recebido, do ano. Mas é importante não esquecer: estamos falando de um período de decepções em massa no mainstream – é só olhar para o último projeto de Harry Styles, Ariana Grande, Taylor Swift. Me incomoda o descompasso que é a associação insistente e desnecessária da mídia em pintar Rodrigo agora como um par de figuras como Fiona Apple e Alanis Morissette. Existe uma distância enorme entre inspirações, referências e o que de fato está sendo entregue. Os pares de Olivia continuam sendo quem sempre foram: Billia, Sabrina, Gracie. Ela continua – e deve continuar – sendo, por natureza, uma cantora pop. Uma das principais da década. O que ‘you seem pretty sad for a girl so in love’ me conta é a história de uma artista com coragem e vantagem, mas ainda insegura na hora de fincar os pés num terreno mais sólido. Ela tem o cérebro (– não minhocas), mas, ao organizar demais seus sentimentos para o público, torço para que os seus próximos trabalhos venham mais carregados de caos e coração.




