
“De forma descontraída, Kacey retorna com muita elegância ao bom e velho country.”
‘Space Cowboy’ é uma música que deixou meu eu de dezessete anos espiralando na magia que opera atrás das boas metáforas. O que é que realmente faz das boas metáforas tão… boas? Talvez, o principal motivo seja a maneira como o simples pode soar luxuosamente atemporal e clássico. Misturando o cósmico e o faroeste, um pouco de pop e um pouco de caipira, a faixa ainda me tira arrepios da espinha, mesmo mais de meia década depois de vencer Best Country Song no Grammy.
A jornada de Kacey depois do que pareceu ser um pico com ‘Golden Hour’ (2018) tem sido uma bem variada. Desde algo mais pop em ‘star-crossed’ (2021) até o espiritual, paz e amor, folk-ish com ‘Deeper Well’ (2024), chegar nesse ano num projeto tão direto ao ponto, tanto conceitual quanto sonoramente, tem a sensação de um retorno para casa, depois de uma viagem longa e sem sentido. Quem sabe esse não seja o segredo para não se perder, depois de se sentir assombrado pela projeção do seu melhor trabalho. O auge pode se tornar um grande pé no saco para o artista. Pare para pensar, alguém conseguiu falar sobre Lana del Rey depois de 2019 sem mencionar o Rockwell-no-meio-da-sala? E mesmo assim, grandes ganhos podem ser adquiridos quando se perde o senso de direção da sua arte. ‘Middle of Nowhere’ não está interessado em emular qualquer traço de ‘Golden Hour’ (ou, requentar seus nachos), Kacey parece ter finalmente aceitado parar de querer se reinventar – narrativa tão comum para as cantoras do pop mainstream. E que alívio é tê-la de volta no simples.
Essa é uma coleção de faixas que vai te servir exatamente o que se esperaria delas. Um recorre a um álbum de Kacey Musgraves em busca de uma irmã divertida que nos conte o que tem passado na sua cabeça recentemente. Em ‘Loneliest Girl’, canção que deixou claro para mim que ela está mesmo de volta com tudo, nós recebemos uma simples, mas esperta, reflexão sobre estar em paz com estar sozinho. Verdade seja dita, nada nos seus últimos dois projetos soa tão bem como essa. No momento que se ouve a primeira nota, imediatamente você é transportado para onde quer que Kacey queira te levar. E ‘Middle of Nowhere’ tem um doce equilíbrio entre levantar pontos de vista interessantes e manter o tom leve e divertido. A caneta da cantora se mostra estar bem vivaz montando esse refrão peculiar. Ao aludir aos pôsteres de pessoas desaparecidas, para na verdade pintar o quadro de alguém que sumiu, mas está “living the life”.
Ou, quando ela está comentando sobre a recente alta de interesse por músicas country nos Estados Unidos, com virais morando no topo dos charts como se fosse reggaeton em 2018, em ‘Everybody Wants to be A Cowboy’. Kacey quer que você saiba que música country não é um chapéu de estética que você pode apenas pôr e tirar quando bem quiser. Há sujeira nessas botas que ninguém quer encarar quando vem a manhã. Ou, ao menos, quando se encara as escolhas da vida como um compromisso mais sério do que a estética na internet, só os resilientes sustentam o papel até o fim – há uma lição mais profunda aqui, é importante aprender a apreciar as partes difíceis daquilo que escolhemos fazer de nossas vidas.
Storytelling misturado com humor inteligente, e uma boa e velha e familiar progressão de acordes. O clássico do country oferece uma estrutura para se brincar com, e é dentro dessa estrutura onde as melhores qualidades de Kacey conseguem brilhar ainda mais fortes. Assim como em seu especial de Natal da Netflix: um pouquinho brega e muito mais do que charmoso. Essa é a exata descrição para o lead single, ‘Dry Spell’, com suas insanas referências ao tesão e a leve e calma entrega. O que também completa o pacote de ‘Middle of Nowhere’ com a sensação de retorno misturada à inovação: as colaborações. A cantora convida Miranda Lambert e Willie Nelson para seu mundo. E transparece nas músicas como esses convidados foram bem-recebidos, vocais harmonizando e identidades se misturando para criar a melhor música possível da química dos encontros.
Acredito que parte da minha predisposição para ter gostado tanto de ‘Middle of Nowhere’ vem da destra execução da piada no centro dele. Ser transportado para um lugar sem nome, onde a incerteza reina mas não assusta. É onde quer que se chame o lugar entre nascer e morrer. Muitas das letras brincam com a ideia de não fugir do desconhecido, ou do desconfortável, afinal, você já está em ‘Uncertain, TX’, onde “Nobody ever makes up their dusty old, love-bombing / Snake-charmin’, bullshittin’ / Heartbreakin’, godforsaken / Dumb-ass mind”. Atmosferamente falando, o álbum o tempo todo joga com uma referência sci-fi, alienesca, e cowboy, saída diretamente do filme NOPE (Jordan Peele). Mas a piada nunca se concretiza, o “de-outro-mundo” nunca acontece de verdade, só provoca. Afinal, de absurdo mesmo basta esse mundo nosso. Tudo isso fica ainda mais inteligente na grande escala da carreira de Musgraves: uma cantora conhecida por seu glitter-country-cósmico, com tantas honrarias num gênero dominado por homens, volta às origens com um álbum conceitual ambientado na cidade de “Nowhere”. É categoricamente simbólico para o seu retorno após a abdução do estrelato de ‘Golden Hour’, e encaixa como uma luva no seu universo de cowboys no espaço. Nesse quadro ela nos trás o ghosting como fantasmas reais de ex-namorados que voltam no meio da noite, coiotes a-lá lobisomens, os rumores da garota que deixou ‘Abeline’ (a fofoca e a crença como liga de uma clássica cidade de interior). As peças se encaixam, como diz o refrão de uma das melhores faixas, escondidas no final: “You’re going down smooth like Mexico, Honey”.
Kacey é uma compositora que gosta de constatar o óbvio. É uma faca de dois gumes, porque em projetos como ‘star-crossed’ soa sem criatividade e sem graça, com um uso excessivo e direto de frases e ditados populares. Parece que ela está cantando conclusões que todo mundo já havia tido. Porém, há um ângulo sob o qual esse olhar para os pensamentos mais simples faz o deslumbre de sua música. Uma vez em uma review, a Pitchfork disse (e para mim é inevitável referenciá-los diretamente aqui) sobre o seu estilo: “A grandiosidade mística de Golden Hour cria um efeito magnético ao passo que Kacey Musgraves canta simplesmente sobre o mundo como se ela fosse a primeira pessoa a notar, e você é a primeira pessoa para quem ela conta”. Esse é precisamente o espírito que parece ter sido resgatado nesse álbum. Conforto e solidez, talvez até um grau de inocência, de dizer as coisas na forma em que você as descobre. “I want you so bad it ain’t even funny / I mean for real, what the hell?” – o refrão todo dessa música é assim, simples e efetivo. O tipo mais difícil de encanto de se capturar.
Encerrar o álbum com o jogo de dualidade e opostos em “I tried to be your angel / But you made it hell on me” sintetiza magistralmente a delícia imagem do não-lugar: talvez não exista mesmo lá e cá, nós contra eles, o bem versus o mal, o bom ou o ruim. É tudo junto e misturado. Se agarrar com força às falsas certezas da vida só nos leva a caminhos mais e mais distantes da nossa intuída, complexa, moeda-de-dois-lados e tão querida identidade.




