petal – Ariana Grande

petal – Ariana Grande
2026 · Pop · Universal Republic Records
3,3
3,3

“Se de toda essa situação fodida essa é a flor que nasce, isso não deveria ser algo para se orgulhar.”

O que me pega é que Ariana Grande não era uma artista de álbuns. Sua discografia de 2013 até 2016 foi carregada de singles de sucesso e side-Bs qualquer coisa. Foi só com ‘sweetener’, marcado pelas minúsculas, que ela pareceu dar a piscadela na direção de mais autonomia criativa e desejo de explorar o panorama conceitual de um álbum. Suas eras ganharam cores identificadoras, símbolos reconhecíveis, universos próprios. Não são muitos os artistas que fazem essa transição, e Ariana parecia vir gradualmente acertando mais e mais na qualidade de seus projetos, sobrepondo até o compromisso com singles, cada vez menos estratégicos e radiofônicos – o que não os impedia de alcançar sucesso. Mas quando ‘eternal sunshine’ se encerrou, tudo o que eu menos esperava para depois era uma era como  ‘petal’. Como foi que chegamos aqui?

É espinhoso e inevitável tentar falar dessas músicas tão bizarramente superficiais e bobas, sem tocar no assunto delicado – que é como mídia e vida pessoal trouxeram esse momento da cantora para ponto de ebulição. Não é segredo pra ninguém: Wicked mudou Ariana Grande. Do fã mais parassocial ao ouvinte casual, houve sim um esforço empresarial em revender a marca de cantora pop do arquétipo “diva”, dos videoclipes com chihuahuas em mini-bolsinhas e um ego para ocupar a via láctea, para a atual versão “almond mom”, Glinda-como-popstar, que temos hoje. Ariana Grande parou de significar atitude e vocais para ser sinônimo de polêmicas e “o que há de errado com a cultura”. Em sua tímida participação do fenômeno BRAT em 2024 – olho do furacão da campanha de divulgação do primeiro filme de Wicked – ela já revelava sua frustração. Principalmente com a incompatibilidade entre o que desejava transpor de imagem ao público, e o que o público devolvia ter absorvido dela: “It’s a knife somebody says they like the old me and not the new me”. Entre Cat, Ariana diva-pop e Ariana atriz-madura, a confluência de discussões em cima de seu corpo, seus trejeitos em entrevistas, seus relacionamentos, fomentou escrutínio o suficiente para justificar que seu próximo movimento musical fosse uma réplica (ou tréplica) recheada de digna ferocidade.

“Feral”. Foi a palavra usada pela cantora para descrever “petal” desde o começo. “It’s definitely from a place I’ve been maybe too shy or polite to tap into before,” ela conta para a equipe, e para os fãs, em um vídeo postado pelo Instagram. “This kind of just feels like, fuck it”. Essa descrição me deixa perplexo. Absolutamente nada nas doze músicas que compõem esse álbum pediam pela palavra “feroz” como descritivo. Talvez, foram os clipes que acenderam mais essa imagem na cabeça da autora, com flertes do gênero terror, muito sangue e até uma motosserra. Mas é para além de incompatível o que parece ter sido a intenção de raiva da cantora, com o resultado propriamente obtido nas músicas.

Parece impossível para essa nova Ariana – muito mais agarrada às imagens de manifestações, positividade e leveza – o pleno compromisso com a raiva absoluta e a selvageria que ela sugere exigir sua defesa perante as acusações. Das duas, uma: se ela sente mesmo toda essa ira (e ela teria todo o direito), então não soube traduzi-la como precisava. Se ela acha que as músicas são mesmo dignas do que ela vem sentindo, então ela não sabe o significado da palavra “feral”. “petal” se apoia, principalmente, no trabalho de Ilya Salmanzadeh para criar o tom “sombrio” através da produção. Há uma nítida tentativa de criar atmosfera – pesada, de grandeza – e o resultado são sintetizadores que, pela primeira vez em toda a discografia, engolem e abafam a voz de Ariana. Como é o caso de “kiss me” e “petal”. Tire esse defeito indesculpável do álbum, e o que sobra é ainda pior. São várias e várias letras como as de “stay”, tão óbvias e previsíveis que você nem precisa dar play para dizer que já conhece: “Way too good to be true / Can’t find nothing wrong with you / I’m falling for you what do I do / I just wanna stay this time / Really I should stay this time / Stay”. É, além de insultante, um retrocesso bizarro de incongruente para uma cantora tão avançada em sua discografia. Para quem uma vez triunfou artisticamente, evoluindo para além do pop genérico e adentro de sua própria subjetividade no mainstream, ela, definitivamente, não precisava mais lançar esse tipo de música.

Parece haver em toda faixa uma insinuação ou flerte entre a ideia de um término real, e uma separação simbólica dela com o público (ou seria mesmo da relação conturbada com os fãs? A composição não torna claro). Esse é um truque que faz dar certo músicas como “hate that i made you love me”, é o mesmo que trouxe tanto sucesso a “we can’t be friends (wait for your love)”. Mas um truque só é capaz de te levar até tão longe. O borbulhante e etéreo do lead single, confuso e enganoso, causa a primeira impressão de que Ariana nos oferecia a mesma paleta de seu último álbum uma segunda vez. Essa associação se desvencilhou. De fato, são álbuns diferentes, mas o risco ainda denuncia um grau de descuido. E em matéria de dobradinhas, “bad thing (bunny hop)” parece uma tentativa de mal gosto de vestir as roupas do The Weeknd. “big feelings” tenta e não alcança nem metade do sensual provocativo e aveludado uma vez conquistado com ‘positions’. Para um álbum tão curto, são muitos os erros na lista. A maioria erra em tentar reproduzir algo, ao invés de criar. O que diabos aconteceu no estúdio? Que descompasso pode ter criado tanta distância entre intenção e resultado? É como se uma Ariana tivesse contado para sucessivas outras Arianas a ideia de uma música, até o telefone sem fio gerar essas versões vazias, rasas, de temas que a própria já explorou antes com muito mais personalidade.

Em nome do humor, e para abrasileirar o conceito do álbum, até no lixão nasce flor. É o caso de ‘freak’ e seu outro (no sentido oposto de intro) transformado em interlúdio, ‘warning signs’. Quem dera essa direção tivesse sido tomada como referência para o resto das canções. Entre o distorcido e a alucinação, ouvimos pela primeira (e única) vez uma ideia original em ‘petal’. Também somos agraciados com o alívio de ao menos uma vez apreciar seus vocais, quando ela belamente canta “My voice plays in a taxi passing by / You don’t deserve me / You know you don’t, you never have / But I want you to feel me / I wish someone could hear me”. São os versos que parecem melhor exprimir a sua angústia.

Como é curioso. ‘eternal sunshine’ e ‘petal’ parecem formar pares perfeitos para acompanhar cada episódio de escândalo dos circuitos de Wicked. Se o primeiro pareceu funcionar como remédio receitado sob medida para a mazela específica, dessa vez somos deixados com uma decepção. Da desproporção dos rumores ao inegável na cena mais analisada do seu último clipe, no fim, é somente triste ver uma das grandes artistas de hoje tão tremendamente encurralada, aflita na própria pele. Entre a velha e a nova Ari, entre querer ser cantora e ser atriz, entre estar livre ou estar presa… Criativamente falando esse álbum permanecerá uma enorme interrogação na sua carreira. Para quê?

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