Vício Inerente – Marina Sena

Tendo seu grande boom em 2021 com o single jovial e malicioso “Por Supuesto”, do álbum de estreia “De Primeira”, Marina Sena ganhou o Brasil no charme mineiro. Dois anos depois, debutando um novo álbum, agora acompanhada de uma gravadora (Sony Music Brasil), se colocava no ar a questão: ela veio pra ficar ou não? Trocando o vermelho pelo azul, a cantora descreve a principal diferença entre seu debut e o sucessor pela própria mudança física que passou. O estrelato lhe trouxe à São Paulo, que em “Vício Inerente” é representada pela estética da selva urbana, com uma pegada futurista que também curiosamente abrange as praias.

O dilema da vocalista parece ser centrado em dois aspectos: a saudade de casa, onde São Paulo se torna mais símbolo do que cidade, em direta oposição às ideias de libertação e pertencimento. “Meu Paraíso Sou Eu” nos coloca bem diante dessa meditação. Confiança e paz, instrumentos de corda simulando as ondas (do mar, e do barato), frases que são quase um mantra: “É surreal, como eu sei me livrar / De tudo que não preciso / E não adianta, meu santo me livra do mal”.

Parte do deleite de ouvir o “Vício Inerente” é viajar junto da vocalista por tantos estilos e gêneros musicais. São canções que misturam o funk com a MPB, a capoeira com o pop. Iuri Rio Branco, produtor do álbum e ex-namorado de Marina, disse em uma entrevista: “Não adianta você querer meter uns beats, fazer um sample de tal jeito, se você não é um beatmaker, se você não vive aquela cultura, não convive com a rapaziada daquela cena”. Talvez seja precisamente isso que sustenta o encanto desse projeto, e o que faz funcionar toda a junção de sonoridades de forma coesa. A brasilidade plural parece estar em sintonia com a cantora o tempo todo, sem estranheza. Pelo contrário, a sensação transmitida é a de domínio e conforto. Faixas como “Mais de Mil” e “Dano Sarrada”, que encaixam o funk em meio ao pop, parecem evoluções naturais do que foi apresentado antes em “De Primeira”.

O sensual sempre teve sua relação com a música brasileira. Variando do sugestivo metafórico ao explícito, em gêneros do samba ao funk. Há um certo estereótipo relacionado à exportação da brasilidade e o turismo sexual que é vendido sobre nosso país. Existe um limite estranho entre o que separa arte ou produto quando se escolhe cantar sobre os prazeres assim. Talvez seja impossível tentar encontrar a coisa exata separando um cantor que faz do vulgar um mero artifício para chamar atenção, daqueles que acertam no tom e transformam o sexual em prazer aos versos.  O que importa é sabermos, ou melhor, sentirmos a diferença.

O mistério do flerte é quem faz da caçada algo excitante, e é sobre esse desejo tensionado que a sensualidade de Marina quer cantar. O jogo do sensual e do sexual pra ela parece ser vital. Está no cerne de quase todas as faixas. São imagens de vestidos apertados e planos mirabolantes pro depois da festa que traçam o ritmo. Brincar de mistério, se fazer de difícil, fingir que não viu, a cantora sabe que no fundo essa dinâmica toda é bobeira, e todos querem é sentir prazer – ou melhor ainda, se sentir bem.

A grande questão chave, porém, é que a vocalista sabe comunicar sua ânsia e malícia com assertividade. As letras de seu álbum são criativas ao recorrer aos cenários e personagens de São Paulo: a intenção plantada desde cedo (“Toda foto você sempre deixa um like”), a festinha de fim de semana, o pós do rolê no apartamento (“O cinzeiro já tá perto de transbordar”), o pensar de noite na cama. Há um tom de leveza, de naturalidade no jeito que tudo se desenrola.

Em “Pra Ficar Comigo”, Marina mira num final transcendente pra sua viagem. Entre ótimos ad-libs e uma letra mosaico de tudo que seu álbum evoca, o mar psicodélico aqui deságua lindamente. O portal que antes ficava aberto entre Minas e São Paulo pode ter se transformado em ponte, mas a certeza que fica ao fim desse projeto é: Marina Sena definitivamente veio pra ficar.

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