“Todas as cartas de amor são ridículas.” (Álvaro de Campos)
A dualidade entre São Paulo e Rio foi tema central do primeiro texto deste site, não pretendo me ater à dicotomia entre elas. Está mais do que claro: Meu coração pertence a São Paulo, tenho no Rio um amante. E esta é uma carta aberta à ele. O Rio, que me levou mais perto aos impulsos da intuição neste último mês de Janeiro. Se você não é o destinatário, isto é apenas algo entre o mais engraçado dos caminhos, o vergonhoso em se declarar para alguém e aquilo que nem sempre temos coragem para contar cara-a-cara.
Querido, antes de tudo: espero que esteja bem. Espero que o tempo tenha te trazido boas ondas e mantido seu bronzeado.
Rio, querido, me assusta um pouco soar tolamente apaixonado e acabar te afastando. Afinal, vivemos tão pouco juntos, mas, ao mesmo tempo, muito. E ainda assim, já te incluo nas páginas do meu diário, nas minhas sessões de terapia, e, mais importantemente, te tenho comigo na intimidade maior que é sonhando deitado no travesseiro, pouco antes de dormir.
Te conheci em julho de 2024. Como mero turista. Nos apresentamos um ao outro com certa formalidade e um desejo que ainda nos era secreto. Afinal eu fiquei hospedado em Niterói.
Quando voltei para celebrar o ano novo, você pouco imagina o simbolismo cósmico que o momento da queima dos fogos em Copacabana teve para mim. Por doze minutos ininterruptos – os primeiros doze de 2025 – fui um inseto. Desde que comprei as passagens e definimos a viagem eu soube que iria chorar. Mas me impressionou ainda assim viver a concretude daquele momento. Fui um inseto pois não suportei mais a dor de estar contido – há anos já – numa casca onde não caberia mais eu. Havia me tornado maior. Maior. Então ali mesmo, na praia, à meia noite, com minha melhor amiga ao meu lado, me desfiz do exoesqueleto. A muda exige um certo grau de violência, há um rompimento que precisa acontecer.
Rio, das vezes em que te vi, fui tomado pela timidez da atração. Estava atordoado de tão seduzido que me sentia. Seu charme me estonteia. Pouco pude te explicar sobre essas coisas. Se quiser me imaginar antes de te conhecer quero que pinte o seguinte: antes, havia uma rede enorme de coisas acontecendo, e todas convergindo para um único ponto. Quanto mais próximo do ponto, maior era a pressão de tudo junto. Por volta do começo de dezembro eu soube. Soube que tudo confluia para o ano novo, clímax da história toda. Seria a celebração máxima da renovação, do recomeço, dos ciclos que inventamos para encontrarmos novas motivações. De certa forma, quando falo em tudo, é tudo. Toda uma vida coletando peças para montar uma espécie de quebra-cabeça para o qual eu desconhecia a imagem final. Me perdoe se estou soando poético demais.
Talvez o seguinte: era como se eu fosse um homem que vivia dos frutos de uma árvore, e um dia, porém, decidiu que queria mesmo era viver como pescador. Derrubou então a árvore para construir um barco. E por algum tempo ficou, tragicamente, sem fruto e sem peixe. Não havia volta, a árvore já estava cortada, e agora nada podia fazer senão esperar pela construção do próximo passo. Foi nessa agonia de não possuir mais meu passado nem ainda meu futuro que saí com você. Já não era mais quem eu costumava ser, ainda não podia ser totalmente quem eu queria me tornar. Você saiu com uma espécie de limbo-eu.
Bem, lá estava eu, Rio. A casca velha abandonada na praia, meu novo eu, maior. Nosso encontro marcado pro dia 04. Por dentro eu efervescia. Mas foi a sua timidez devolvida que me abriu a mente para algo que há muito eu havia esquecido. Naquele nosso dia na praia me diverti como uma criança que descobre o mundo com os pés na areia, cheiro de maresia e o calor do verão. Renovei em mim a crença de que não estou alheio ao que existe no meu entorno. De que possuo um poder que age sobre os outros – sobre você, que me chamava pra mais perto naquele momento.
Naquela noite, já de volta no Airbnb, bebi o primeiro vinho do ano com minha melhor amiga. Falamos sobre a vida, tentamos decifrar nossos pais, celebramos o novo relacionamento dela. Rio, você não faz ideia do quanto eu estaria abrindo mão quando cogitei largar São Paulo por você. É impossível me conhecer sem conhecer a Giovanna, ela é meu oposto complementar.
Rio, como te explicar? Eu precisava dar um susto nos conformes de tudo. Um susto em mim mesmo, em meus pais. Só assim eu ficaria em paz. Quando cogitei a mudança repentina fui atingido de uma só vez, como que por um golpe único, não tinha volta. Foi como um bicho que ganhou vida própria – a ideia da ruptura e do novo se instalou na minha mente. Quando me dei por mim, estava num ônibus voltando pela segunda vez no mês de Janeiro. De repente, o ano todo parecia outro. O inesperado me chamando pelo canto do ouvido. Pensei que minha segunda visita seria a vez onde iríamos até o fim, Rio, querido. Pelo contrário, você me recebeu na sua casa e me embebedou de mais vontade apenas.
Me sinto culpado por ter te incluído no meu plano maluco. Mesmo por um dia que fosse, te dar a esperança do que seria o mais engraçado dos caminhos, o que eu me mudaria. Nós dois a um táxi de distância. A promessa do inevitável que viria depois disso. Era o que eu queria também. Mas você mesmo me disse e sabe, que é mais complicado do que isso. Não poder ficar perto de você foi o único pequeno luto que trouxe de volta comigo para São Paulo. Uma tristeza que foi engraçada de sentir, pois te ter apenas como esse amante impossível, um querer que tem que esperar, esse drama, em partes, é exatamente o que eu queria meses atrás.
Rio, se amar é deixar ir, sei com certeza que o que sinto por você se chama paixão. Te queria perto, colado, grudado. Você me encantou sem nem mesmo tentar, com seus táxis amarelos como nos filmes, prédios antigos como na história, e o Cristo abençoando toda a paisagem como a das novelas. Venha me visitar, por favor, amante querido. Por você eu traio São Paulo de novo e de novo e de novo. Espero que entenda minha decisão de ficar na gris paulista. Espero que saiba que este texto é para você, você sabe quem você é. Espero que não se assuste com tudo isso, saiba que quando escolheu beijar um escritor, selou um destino trágico de ter seu nome nas páginas para sempre. Espero que também pense em mim de vez em quando, especialmente enquanto surfa.
Com reminiscência,
João