
2022 | Alternativo | Folk/Americana | Daughters of Cain Records
Ethel Cain mira alto com Preacher’s Daughter e consegue alcançar o quase-divino.
Narrativa é provavelmente a palavra que melhor cobre o intuito principal de “Preacher’s Daughter”. Com a ambição de contar algo digno de filmes com orçamentos milionários, Cain nos desafia a acompanhar sua habilidade de storytelling por 74 minutos. Suas músicas são longas, sem pressa de chegarem aonde têm a intenção de chegar. É essa firmeza em ir contra um padrão de duração na música de hoje que apenas confirma o que se espera da personalidade da cantora.
Nascida e criada dentro de um ambiente extremamente religioso, filha de um diácono (ministro de Deus), Hayden enfrentou as instituições Deus e família já jovem. Aos 20 anos, abriu publicamente sua identidade como mulher trans. A forte influência cristã percorre todas as 13 faixas que compõem seu álbum. A viagem perpassa do gospel ao rock, do country ao americana, embalando a epopéia da personagem/alter ego Ethel Cain.
Há basicamente duas formas de entrar em contato e experienciar esse projeto: sabendo como a história se desdobra, ou descobrindo enquanto se ouve. Quando se fala sobre a ambição cinematográfica de Hayden, abrange-se não somente sua visão artística de melodia e estrutura de narrativa, mas também de conteúdo e o propósito dele. Criam-se dentro das músicas deste álbum vários capítulos, sub-plots que vão te levando a diante. Em “Strangers”, pouco antes da conclusão do álbum, Ethel questiona “Am I making you feel sick?” não apenas para seu amante, mas também para o ouvinte. Momentos como “Gibson Girl” e “Ptolomaea” são difíceis de passar despercebidos. E para os que caem de paraquedas no projeto, pode ser pesada a quantidade de informações para se captar. Afinal, trata-se de um trabalho extremamente rico em detalhes. O que permite o álbum funcionar melhor do que um filme para contar essa história é justamente essa potencialidade de revisitá-lo, cada vez com mais domínio de suas letras, para cada vez coletarmos mais informações. Se “Preacher’s Daughter” tentasse ser apenas uma coleção de músicas soltas, algo muito similar a “Ultraviolence” (2014) de Lana del Rey teria sido obtido.
Hayden prova em diversas passagens ao longo do álbum sua força como compositora. Em “Family Tree (Intro)” já somos recebidos por versos como “Jesus can always reject his father / But he cannot escape his mother’s blood”, que não apenas incita algumas questões acerca da fé, mas introduzem um dos primeiros dilemas de Ethel, que diferente da figura divina, carrega sua hereditariedade como uma sina, um fantasma em sua mente. As letras de Cain são provocantes, assim como seus temas. Há quem pense que o único intuito da artista é conseguir listar todo tipo de tragédia possível na vida de sua personagem. Afinal, esse é um trabalho sobre trauma, potencializado pela mente criativa da artista. “American Teenager”, hit nichado no TikTok e ode-sátira aos americanismos, serve como um ponto de partida e outdoor da história de Ethel Cain, um lead single que chega a ser metalinguístico, quase como uma propaganda enganosa, pois nada mais no álbum soará leve assim.
O que certamente coloca “Preacher’s Daughter” como um merecedor do título “clássico moderno” é a especialidade da cantora em potencializar sua narrativa. O álbum alcança isso através da amplitude de maneiras como se pode tomar aqueles eventos para si. A dor de Ethel, seus traumas, sua tragédia, e principalmente a forma como ela mantém a esperança por sua história, até o fim. Cain trilha um caminho quase antagônico ao da jornada do herói, não como vilã, mas sim como vítima. Professores de literatura podem explorar seus versos como se exploram epopéias gregas. O motivo? Há uma mitologia criada aqui. O contexto dentro do micro universo visceral e violento da história serve de metáfora para o nosso mundo. A imagem de uma garotinha sendo devorada por um homem é intrinsecamente poderosa quando cantada pela voz de uma mulher trans.
“Even the iron still fears the rot” ela canta na apocalíptica “Ptolomaea”. Suas escolhas estéticas são certeiras a todo momento. “Thoroughfare” evoca a busca pelo Oeste, pelo amor e pelo novo como símbolos que funcionam perfeitamente no jogo da personagem. Enquanto “Sun Bleached Flies” ascende ao céu, “Ptolomaea” vai até o inferno. E assim são todas as faixas. “August Underground”, faixa instrumental que simbolizaria a morte de Ethel, faz referência a um snuff film (vídeos de homicídios da deep web) homólogo.
Ethel provavelmente alcança seu ápice apelativo em “Sun Bleached Flies”, onde a história parece transcender. A voz tranquila e emotiva da cantora carrega o crescente louvor estético para um patamar muito mais intocável e belo, é uma ascensão ao divino mesmo para quem não acredita. A morte de Ethel fica aqui cristalizada como um momento de libertação total, de aceitação do destino, de revolução do espírito.
Não é fácil se apaixonar por um álbum tão denso e tão comprometido com seu próprio imaginário marcado pela violência, abuso e morbidez. Mas é a percepção dos momentos de luz e esperança escondidos ali que o coroam como uma peça minuciosamente bem arquitetada.