Midnights – Taylor Swift

A década de 2020 representou um verdadeiro reset na trajetória de Taylor Swift. Com os emblemáticos “folklore” e “evermore” durante o isolamento, somados à sua empreitada nas regravações de “Fearless” e “Red” em 2021, Swift conquistou uma nova geração de fãs devotos, sem deixar de cativar os antigos, moldando assim o que se tornou um hype digno de recordes milionários para o que veio a ser seu décimo álbum de estúdio. 

De cara, o mais provocante quando se busca entender qual o papel de “Midnights” em sua discografia, é o impasse entre a forma como ele foi descrito por Taylor, e o que ele de fato contém. O prólogo, feito por ela, descreve algo que aparentava ser o mais dramático e conceitual de seus projetos. “O que te mantém acordado à noite?” servia de provocação para os temas a serem explorados. A coleção original de 13 músicas com as quais nos deparamos acaba por ser mais um quebra-cabeça de referências do seu multiverso, do que uma verdadeira aventura madrugada a fundo, à la “Melodrama” (2017).

É fato que Taylor conquistou uma certa maestria com as próprias palavras e o controle da narrativa dentro de suas músicas com a ajuda de Aaron Dessner. Esse storytelling e apelo narrativo se adapta bem ao retorno dos sintetizadores pop. É em “Midnights” que ela domina melhor o senso de norte dentre todos seus trabalhos no gênero. A cantora sabe onde quer chegar com cada música e com a progressão delas. Dividido em Side A e Side B, o álbum vai da auto-aversão para uma celebração de si próprio. Fazemos uma viagem tranquila, há notas de amor aqui e ali (Lavender Haze, Snow at the Beach), o medo de perder tudo (Anti-Hero, You’re On Your Own, Kid), mas assim como um bom filme da Disney, ela  garante que terminamos num tom otimista: há beleza em nossos defeitos (Mastermind).

O que mais aparenta trabalhar contra o próprio carisma do projeto, é justamente seu pseudo-conceito. Quando visto dessa forma, uma viagem pelas inseguranças de Taylor quanto a sua ambição e fama, que deságua em verdadeiras bangers de celebração de quem somos (Bejeweled, Karma), “Midnights” é, objetivamente, ótimo. Porém, esse não é o “Midnights” que a artista quer promover. “Midnights” se mascara na ideia de apenas explorar madrugadas por sua vida, resultando em momentos que soam desconexos e perdidos no todo, como em “Question…?” e “Vigilante Shit”. A insistência nessa tecla nem sempre impede as músicas de serem highlights no projeto (como na delicada e comovente “Labyrinth”), mas definitivamente trabalham contra a sensação de algo fechado. Há um começo e um fim, mas o meio parece perdido.

No dia de lançamento do álbum, uma “surpresa muito caótica” foi prometida pela cantora para as 3h. Se tratavam de mais sete faixas bônus, compondo uma versão deluxe intitulada “3am Edition”. O mais curioso é a forma como essa porção do álbum foi promovida como um aprofundamento do conceito das noites passadas em claro, mas não só parecem abstraí-lo ainda mais, como são as composições mais fortes dentre as vinte músicas do universo. “The Great War” e “Would’ve, Could’ve, Should’ve” surgem como clássicos instantâneos de Taylor, marcas da sua composição vivaz e consistente, e são concorrentes fortes para o cargo de melhores colaborações com o produtor Aaron Dessner, algo que, vindo depois de “folklore” e “evermore”, é impressionante. Em “Dear Reader”, segundo momento de encerramento de “Midnights” (e o mais digno de tal), a artista parece enxergar a si mesma com total clareza, a carta direcionada aos fãs é direta e sincera: “You should find another guiding light, while I shine so bright.”. Essa letra parece servir de conclusão e de resumo perfeito do que a cantora quis trazer com seu décimo álbum. Seu nível de sucesso nunca foi tão grandioso, seu medo de perder tudo apenas acompanhou a escala. 

Posted on:
Avatar de João Gabas

Outros Textos

Redes Sociais