
1992 | R&B/Soul | Jazz | Sony Music Entertainment (UK)
O Mito do Amor, contado por Sade.
O amor no centro. A premissa de que uma música ou álbum irá explorar o tema do amor, hoje em dia, seria quase um pleonasmo. Exceções existem, mas o amor acaba sendo uma língua universal na música, onipresente. Amor para si, amor que dói, que é correspondido, que não é, as facetas são infinitas. Afinal, é o mistério do amor que torna possível que novas canções românticas surjam até hoje, e que elas continuem tocando nossos corações.
Sade se coloca precisamente entre as complexidades do desejo e da dor. É importante separar o que é o Sade (banda), o órgão que pulsa e reverbera, do que é a Sade (vocalista), uma personificação de Afrodite em terra. Um sem o outro não existe. Com apenas 6 álbuns de estúdio lançados até hoje, em quase 40 anos desde Diamond Life (1984), projeto de estréia, Sade são conhecidos pelo respeito à mística e magia do hiatos. Já são 13 anos desde Soldier of Love, seu último lançamento.
Mas o que mais define Sade como uma banda ímpar é sua maestria em colocar o amor no centro de sua música. Há uma manifestação constante do sentimento poderoso, pungente, nebuloso em todas as músicas. O grupo entende que o amor é uma batalha, um campo de guerra, uma mesa de jantar, uma distância maior que oceanos, uma cama vazia, e muito mais, tudo ao mesmo tempo. Há amor na própria ausência. Seus títulos mais emblemáticos já nos entregam essa imagem, como em Soldier of Love, War of the Hearts ou Bullet Proof Soul.
A discografia da banda nunca foi sobre reinvenção, mas sobre mudanças sutis. Começando com algo mais cheio, seu som foi se descascando e se revelando cada vez mais meditativo. Love Deluxe é a proposta mais profunda e potente do grupo. O título já premedita algo: Amor, versão de luxo. É nesse projeto que se encontram suas passagens mais etéreas e envolventes. Os instrumentais do R&B, jazz e pop são quem vão revelando cada camada de amor. Neles, as histórias narradas pela voz incansável de Sade flutuam confortáveis. Quando conversei sobre estar descobrindo as músicas da banda com minha mãe, seu comentário foi de que, se um dia um bilionário fosse mesmo colonizar Marte, e quisesse fazer um luxuoso evento televisionado de inauguração da coisa, pra ela, o show de abertura com certeza seria realizado por Sade. De fato. Performances ao vivo, diretamente de uma colônia marciana, das baladas No Ordinary Love e Bullet Proof Soul soam como algo que combina.
Por debaixo de uma superfície mais palpável e abrangente das premissas do romance, mora nas entranhas da banda uma chama ainda mais forte. Seu maior apelo sempre foi cantar sobre aqueles cuja a chance de amar livre e intensamente foi tomada pela desigualdade. Jezebelle em Promise (1985), Immigrant em Lovers Rock (2000), Pearls em Love Deluxe (1992) são todos exemplos da constante presença do tema. As personagens presentes nessas músicas sempre foram evocadas em uma certa névoa de mistério e misticidade. Rostos e nomes eram meros detalhes, a alerta de Sade para o mundo, sobre o mundo, era o mais importante. Em Love Deluxe, três músicas trazem esse propósito, e Like a Tattoo talvez seja uma das mais fortes não apenas do álbum ou da banda, mas de todas. Baseada numa história real, revelada à vocalista uma vez num bar, a narração aqui borra os limites do que é o outro e o que é apenas empatia. Há algo reminiscente da ‘Rosa de Hiroshima’ na beleza assombrosa de Like a Tattoo. Somos hipnotizados já do ponto de partida: um instrumental que parece nos situar num deserto distante, uma guitarra que premedita sofrimento. É a ideia de se vestir cicatrizes como uma tatuagem, um símbolo para não se esquecer pelo resto da vida, que carrega a força dessa faixa. Duas cicatrizes nos são apresentadas: a primeira, num olhar eternamente gravado pelo terror e pela culpa da guerra; a segunda, de Sade, que nunca esqueceu o que lhe foi contado aquele dia pelo veterano.
Na capa de Love Deluxe, a vocalista se encontra só, contemplativa num fundo branco abstrato, se abraçando de olhos fechados. A letra de Pearls traz a imagem de uma mãe sofrendo com a dor da pobreza na Somália, lutando pela vida de sua filha, e Sade cria uma imagem eficaz através da simples comparação: a dor da personagem machuca como sapatos novos. Uma ponte entre o privilégio e a injustiça. A vocalista nasceu na Nigéria, mas cresceu em Londres. Foi um símbolo preto nas apresentações do Live Aid em 1985, televisionado para estimadas 1,4 bilhão de pessoas. Seu apelo pelo amor numa forma máxima também encontra lugar para sua identidade como mulher nigeriana e imigrante.
Há uma certa elegância nas músicas de Sade que toma conta de tudo ao seu redor. Essa é uma característica que sempre lhes coube muito naturalmente, é difícil forçar uma atmosfera que “soe” elegante. Extravagância e luxo se convergem com consciência eletricidade. A partir disso, constrói-se um novo ritual do romance dentro das complexidades do mundo cosmopolita. Bullet Proof Soul é carregada de drama e jazz. Com sabedoria e pesar, a cantora lamenta a forma como seu amante enxergava o amor como uma arma: “I know the end before / The story’s been told / It’s not that complicated / But you’re gonna need a bullet proof soul”
O poder maior que fecha esse álbum com um conceito maior e mais coeso é o instrumental que o encerra, Mermaid. A imagem da sereia é usada no clipe de No Ordinary Love e pinta-se uma ideia de Love Deluxe seriam as histórias contadas por esse ser fantasioso do amor. Uma alma solitária no fundo do oceano, refletindo sobre suas experiências com a sedução e o adeus. “I swear the whole world could feel my heartbeat” ela revela em Kiss of Life. Talvez seja precisamente essa proposta da sereia que tenha trazido ao Love Deluxe a atmosfera difusiva, circundante e absoluta, como o oceano imponente.Penso que ouvir esse disco de Sade é como dar um mergulho. A combinação hipnótica e exuberante dos instrumentais de R&B e jazz em suas melhores expressividades, com a galáxia de contos sobre amor neles narrados, forma um convite irrecusável de se fechar os olhos e sonhar. Sade é o mito do amor tomando a sua forma mais concreta possível, é o groove e o flamenco, é o que formiga inquieto dentro da alma de todo ser humano. Seja sozinho ou acompanhado, acreditar no amor é o link que permite o ouvinte a se conectar com a banda, e talvez isso seja exatamente o que define Sade como algo único nessa indústria, tão obcecada pela canção de amor perfeita.