
2023 | Pop | Geffen Records
Entranhas e instinto – GUTS encerra a fase da adolescência para Olivia Rodrigo.
“GUTS” é o segundo episódio que acompanhamos no mainstream recente onde uma novata com um álbum de estreia de sucesso meteórico, tem que encontrar coragem e inspiração para vestir os sapatos de superstar e criar um sucessor para tal. É um projeto difícil de fazer dar certo. Ao contrário de sua companheira de geração Billie Eilish, que optou por uma tradicional mudança radical em estética, Olivia introduz seu segundo álbum com premissas quase iguais às de “SOUR” (2021). A escolha parece ao mesmo tempo comercial, na segurança de apostar em algo que já deu certo, e criativa, pois como dito anteriormente pela própria cantora, o seu primeiro álbum não precisava ser seu melhor, portanto ainda existiria margem naquele universo para se criar mais.
Nos dois anos que separam os trabalhos, o que mais se firma no novo é a energia de Olivia. Apesar de suas letras falarem muito sobre inseguranças e frustrações de sua fase entre a adolescência e a vida adulta, “GUTS” é um álbum que exala mais confiança em seus momentos agitados, e mira mais profundamente nos reflexivos. É de certa forma reconfortante saber que mesmo depois das múltiplas acusações de plágio e conflitos com créditos durante 2021 (hoje, seus hits “good 4 u” e “deja vu” revertem 50% dos lucros para Hayley William e Taylor Swift, respectivamente), Rodrigo ainda encontrou espaço para depositar fé no próprio instinto criativo, apostando no estilo pop-rock como sua marca. O single “bad idea right?” e as faixas “get him back!” e “all-american bitch” são pontos altos de seu álbum, oscilando entre o tirar sarro das situações românticas bobas que somente os dezenove anos proporcionam, e as leves críticas às expectativas que caem sobre uma popstar jovem.
Em “ballad of a homeschooled girl”, Rodrigo brinca com os estereótipos da estranheza social. São letras como “Everything I do is tragic / Every guy I like is gay”, marcadas pela visão sentencial da adolescência, onde escapa pelo seu lirismo o uso constante de sempres e nuncas, todos e nenhuns. Situações embaraçosas significam o fim do mundo, ou nas palavras dela, suicídio social. Mas isso não impede o carisma e humor da música de vencerem no final, o resultado ainda é bem cativante.
2023 tem sido o ano do triunfo da chamada girlhood (em português, algo próximo de “irmandade”) na cultura pop, e “GUTS” é parte disso. Fenômenos como ‘Barbie’ e a ‘The Eras Tour’ movimentaram bilhões de dólares através de ícones femininos, celebrando algo intrínseco sobre a experiência feminina que Olivia também explora. A envolvente “making the bed” nos pinta os devaneios secretos que invadem a mente da garota em seu quarto. Já a misteriosa “lacy” possui a simbologia mais intrigante que a cantora já usou: “Aren’t you the sweetest thing on this side of hell?”. Músicas como essa, que escondem seu verdadeiro sujeito, possuem um certo frescor na discografia de Rodrigo, que teve seu relacionamento com Joshua Bassett escancarado na mídia durante o rollout que tornou “drivers licence” um sucesso.
Partindo para a coletânea de baladas, que são também traço forte da identidade de Rodrigo, moram as faixas mais fracas do projeto. O ponto-chave aqui é como nas canções de pop-rock, seu tom é despreocupado, mas sincero, enquanto nos momentos de pura tristeza, a nota de seriedade parece não encontrar seus melhores ângulos. Apesar de estar narrando sentimentos que todos talvez também experienciem, músicas como “logical” apelam para metáforas rasas e que rapidamente perdem o brilho: “If two plus two equals five then I’m the love of your life” faz um refrão que pouco se sustenta. As pontes ainda encontram espaços criativos melhores, na emotiva “the grudge” mora o verso mais original e visceral do imaginário do álbum: “Oh, do you think I deserved it all? / Oh, your flowers filled with vitriol” .
Em “pretty isn’t pretty” a cantora faz dos defeitos que enxerga no espelho uma digníssima música pop. “I could try every lipstick in every shade / But I’d always feel the same / Cause pretty isn’t pretty enough, anyway” ela diz acompanhada do instrumental mais nostálgico e bem produzido da coletânea. Dan Nigro, seu produtor e dupla desde o início, parece finalmente caminhar para algo mais polido e promissor aqui.
A impressão geral que fica é a de que Olivia conseguiu amadurecer o que foi criado em “SOUR”, são melhoras ainda tímidas, mas perceptíveis. Parece ainda haver uma certa contenção do seu potencial. Não restam dúvidas da sua capacidade de idealizar um hit com o qual uma geração inteira pode se identificar, mas seu talento e carisma são capazes de ir muito mais fundo. Resta apenas aguardar pelos seus futuros lançamentos, onde quem sabe possa existir um álbum de Olivia que realmente ouse ser mais do que apenas um throwback bem executado para os tempos de Avril Lavigne e Hayley Williams. Enquanto isso, podemos aproveitar sua era de trilhas sonoras para uma confusa adolescência.