A Pedra

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Conto Vencedor do 1º Lugar no Concurso de Escrita Criativa da FFLCH ConTextar 2025

Um dia, uma pessoa na praia atirou uma pedra o mais longe que podia. Só porque sim. Depois pensou mais ou menos assim: “Ninguém nunca mais vai ver essa mesma pedra. Será que daqui um tempo eu vou me lembrar de tê-la atirado longe? E será que ela ainda vai estar no mesmo lugar onde caiu?”. Seguiu com a sua vida e nunca mais pensou na pedra.

Ocorre que para a pedra o destino havia sido alterado para sempre. A pedra, acostumada com seu lugar perfeito onde tomava banho de Sol, de Lua e de Mar em ciclos, de repente, se viu lançada. Alçou seu glorioso voo por alguns segundos. Glupt. Enquanto caía, deu uma última olhada para cima e viu o céu se tornar um vitral oleoso pulsante de azul. Quando se deu conta, estava debaixo d’água. Completamente submersa. Bolhinhas de ar bailarinando até a superfície, uma explosão em nuvem de areia no fundo do mar. Assentou-se e pensou mais ou menos assim: “É o fim. É isso. Vou morrer aqui afogada.”. Logo descobriu que pedra não se afoga.

Rememorava seus dias de praia já com um sentimentalismo proto-nostálgico. A pedra tinha o seu formato todo indeciso, era robusta e antiga. Nos dias de muito Sol ficava lá, como um ovo fritando em frigideira quente. Seca, seca. Muitos achavam que ela gostaria de se refrescar, umedeciam sua superfície com um tantinho de água pois projetavam nela aquela sensação de alívio que o gelado só traz quando se sente muito calor. Mas ela não pensava assim, para ela estava bom como estava.

Em especial, gostava dos dias nublados e de fazer nada junto da paisagem, quando o céu se tornava um pano cinza estendido, o mar ficava negro e parecia guardar mais segredos do que quando era verde-azul. E a pedra lá, com aquela sua cor de pedra e seu jeito de pedra. Era uma mestre da arte da solitude. Não conhecia outro modo que não uno.

O segredo da pedra era só seu. Era um dilema antigo, de eras e mais eras, assim como ela. Ela era plenamente plena na sua condição de pedra. Até o mergulho. O mergulho mudou tudo. Foi o estalo.

Ali em seu novo trono de areia, tudo parecia estranho e hostil. O fundo do mar costumava ser apenas um devaneio dormente, uma dessas bobagens pelas quais a gente se deixa levar, como “qual animal nós seríamos se pudéssemos escolher”, ou “como deve ser lá no fundo do mar”. Mas agora estava tudo ao seu redor em densa realidade. Um enorme pilar de rocha se salientava à esquerda de onde havia pousado, com corais, musgos e algas formando um verdadeiro apartamento submarino, vertical e cheio de vida. Fragmentos de conchinhas e outras pedrinhas lhe faziam uma vazia companhia no chão de areia, afinal pedras não podiam conversar umas com as outras, pois pedras não falam. Era muito gelado, especialmente quando uma corrente atravessava toda a sua áspera superfície. Era frio e não era silencioso. Fazia um som de água sendo água. Não era o doce e familiar baile do quebrar das ondas que embalava seu sono. Era um barulho antigo e amorfo. Incessante. Ancião.

Tudo aquilo era na verdade muito neutro, pensou, para si mesma, a pedra. Era um novo lugar do qual ela não conhecia, mas ainda não sentia coisas boas nem ruins a respeito. Tempo era um conceito dos homens, ela apenas sabia do dia e da noite, e já havia escurecido. Filamentos de prata da Lua cortavam o meditativo chacoalhar da superfície e a alcançavam.

Esperava ver peixes. Foi o que se permitiu pensar, então. Lá no alto ouvia falar deles. Conhecia os pequenos crustáceos que habitavam a superfície. Mas estava realmente surpresa que não estava cercada de peixes, baleias, águas-vivas e tudo mais. Talvez tivesse só caído no lugar errado, avenida ou bairro errado, sei lá. Foi o que conseguiu pensar.

O medo só brotou na pedra quando ela parou para encarar a distância. Era apenas a cor de fundo-do-mar, para sempre e para muito, muito longe. Olhar para onde antes havia um horizonte, por onde imaginava haver um outro continente, se andasse bastante, agora era olhar para uma cor que não tinha fundo e nem fim. Era como estar dentro do céu, na sensação de infinito. Aquilo sim lhe trouxe calafrios.

Depois do medo, veio a primeira solidão da vida da pedra. Se sentiu nua, sem mesmo nunca ter vestido algo. Era uma espécie de perceber-se num mundo-coisa-em-movimento. Um dar-se conta de que tudo é e não somente está. Quando, como em um transe onírico, nos percebemos distraídos num sonho, e de repente lembra-se de uma vez só: isto é um pesadelo, como pude me esquecer? Um arrepio que é a vida gritando por sua própria vida.

Tendo sobrevivido seu primeiro dia, pouca energia a pedra decidiu gastar com a negação. Percebeu que dali não sairia por força própria, que também não se afogava e nem seria comida pelos peixes. Aceitou que era seu novo lar e se deu por satisfeita. Ficou contente pois pode até se chamar de “adaptável” e “resiliente”. E assim, como um prisioneiro em jaula, perdeu a conta de quantos dias se passaram.

Como já disse, o tempo é um conceito dos homens. Para a pedra, existir era, apenas. Existir era. Tudo se bastava dentro de si próprio. Demorou um pouco para que ela notasse, mas muito, muito tempo se passou. Ela não podia nem mesmo imaginar, mas dali de onde estava, a pedra assistiu civilizações irem e virem. Um apocalipse que pouco lhe afetou.

Sentiu o musgo crescer como barba em seu rosto. Também o sentiu morrer, célula por célula. Viu a cor do seu mundo mudar, de azul-profundo para azul-sem-vida. Não sabia apontar exatamente o quê, mas sentia que algo de errado estava se desdobrando. Como um derretimento da realidade, lento demais para se notar com os olhos. Uma intuição difícil de ignorar, mas que servia só para lhe atrapalhar o descanso, dada sua condição imóvel.

Afundou, depois de muito, muito tempo. Viu a paisagem ir se tornando cada dia mais um túnel. Areia lhe cobrindo, e o mosaico que era seu teto de água ia ficando mais e mais distante. Como quem caía num poço, ela descia ao centro da Terra em tempo geológico. Foi o calor que começou a desconcertá-la. Havia ouvido falar de menopausa, em seus dias de orla e a loucura foi tanta que cogitou ser isso, mesmo sendo pedra, e não mulher. Como numa revelação de um milagre, arrepiou-se toda e entendeu o que estava acontecendo à sua volta. Sentiu sua primeira dor. Aí como doía. O que era aquilo? A vastidão do oceano parecia querer lhe abraçar toda de uma só vez. O absurdo concentrando-se sobre ela como o fardo de Atlas, o titã.

Era uma pedra. Não podia amar e ser amada. Para a pedra, ser livre seria mais do que o mero apagamento das linhas e dos limites, seria poder morrer. Seria um tecido translúcido e reluzente, que existe e continua existindo pra lá e pra cá, sem nunca parar de existir, para além de onde se enxerga e para além de onde dá pra ter consciência que ainda se pode existir. Encontrando-se consigo mesma em ângulos impossíveis, na sua geometria mais perfeita. Transcenderia a própria matéria. Explodiria como num arroto. Puf. E assim se tornaria um objeto mágico e místico, seria maestro enfim. Liberdade para a pedra era como uma febre branca. Para os homens, liberdade devia ser, sei lá, outra coisa. A pedra só conhecia seus conceitos de pedra sobre tudo, afinal, era uma pedra.

Era preciso ir mais fundo. Enterrou-se como que em areia movediça, o mundo lhe convidava para uma aventura nova.

Escrito ao longo de 2025, finalizado em 12/09/2025.

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