1989 (Taylor’s Version) – Taylor Swift

O processo (Taylor’s Version) de regravar seus primeiros seis álbuns de estúdio da forma mais extravagante possível é um evento único para a história dos contratos entre gravadora e artista. Uma potência influente como a principal cantora pop da atualidade escolher tornar esse seu grande legado, levanta algumas discussões sobre como a dinâmica da indústria musical está programada, e nem mesmo os grandes estão imunes ao soberano capital. O sucesso específico dessa jornada de Taylor cabe a outros textos de uma análise apropriada de tal fenômeno. “1989 (Taylor’s Version)” chega como quarta etapa, dos seis projetos a serem regravados.

Como vem sendo padrão até agora, as diferenças entre o novo e o velho moram apenas nos ouvidos dos mais atentos fãs. O reverb da guitarra na intro de “Style (Taylor’s Version), efeitos robóticos nos repetidos “I-I-I, I-I-I” de “I Know Places (Taylor’s Version), entre outras miudezas que habitam numa área cinzenta do que é aperfeiçoamento deliberado da autora, e o que é apenas a diferença nas habilidades técnicas do produtor Christopher Rowe e os titãs da década passada, Max Martin e Shellback.

O mais proeminente de se explorar numa regravação, são as faixas componentes do denominado “From The Vault”. Dessa vez, Taylor parece optar por um caminho anti-climático: as cinco faixas novas não trazem nenhum mega hit instantâneo. “Slut!” carregava um nome sugestivo, para um álbum que possui “Blank Space” como um de seus principais singles, a expectativa era de algo na mesma magnitude. Mas ao invés de outra crítica à forma como sua vida romântica era tratada pela mídia em 2013, aqui mora uma música romântica. “And if they call me a “Slut!” / You know, it might be worth it for once” a artista canta em meio a sintetizadores mais adocicados e suaves. É um contraponto curioso para se trazer ao “1989”, recheado de contra-ataques e voracidade.

Outras músicas dessa seção, como “Now That We Don’t Talk” e “Is It Over Now?” parecem pertencer de forma mais familiar ao álbum, não apenas em som, mas tematicamente também fazem alusão ao mesmo relacionamento que mais impactou a narrativa do álbum. Com pistas e referências espalhadas em suas letras, clássico para a cantora, dá-se sequência ao engajamento mais promissor de um hit na década do TikTok: storytelling.

Uma certa agenda anti-Jack Antonoff toma conta da discussão online após ser revelado nos créditos que o mesmo produziu 5/5 faixas “From The Vault”. “Suburban Legends” especialmente soa remanescente de algo do “Midnights” (2022). É difícil realmente cavar a fundo na questão de Jack como principal produtor do mainstream recente. Peças como “Norman F*cking Rockwell!” e  “Melodrama”, coexistem com trabalhos como “Solar Power”. Fato é que Antonoff não manda dentro dos estúdios, e resultados, positivos ou negativos, precisam ser associados às artistas em si. Essa atribuição insistente e obsessiva do sucesso ou fracasso de mulheres na música ao homem que colabora com as mesmas é, no mais, besta. O ponto aqui é Jack ter o talento de saber cumprir aquilo que o pedem, como já foi descrito por inúmeras entrevistas de suas parceiras na indústria (Clairo, Lorde, Lana, St. Vincent são apenas algumas).

Inclusive, em se tratando de músicas originalmente produzidas por Antonoff, as regravações de “I Wish You Would”, “Out Of The Woods” e “You Are In Love” foram executadas com maestria. São provavelmente as primeiras regravações que contam com o mesmo produtor em ambas as versões, e encontram uma nova roupagem que ousa beirar a réplica perfeita.

No prólogo da nova versão, a cantora escreve sobre a sua ingenuidade. Um ponto de vista inusitado para descrever um projeto que, a nove anos atrás, obteve um sucesso avassalador e simbolizou uma guinada única em sua carreira. Talvez, a semelhança absurda entre ingenuidade e entusiasmo marque precisamente a diferença entre essa regravação e seu original de 2014. O controle absoluto de sua narrativa, agora, por uma Taylor de 33 anos, lhe permitiu um tom mais seguro e genuinamente despreocupado, enquanto aos 24 anos, onde os riscos pareciam mortais e a tensão consumia o estômago, a incansável repetição do lema “I shake it off” soava mais como um caso de fake-it-til-you-make-it. A liberdade nova-iorquina proferida por Swift no passado, parece encontrá-la mais plenamente agora.

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